Solidariedade que salva vidas!

Solidariedade via internet
Correio Braziliense - Cidades - 01/02/2016

Daniel Furtardo (no centro) com a família e Francisco Erinaldo com a companheira Elizoneide (abaixo) recorreram à vaquinha virtual e tiveram sucesso

"Quando eu melhorar, quero ajudar as pessoas necessitadas que estão com câncer. A verdade é que eu nunca gostei de pedir, prefiro ajudar as pessoas. Mas, hoje, não tenho outra saída" Francisco Erinaldo

 

Receber o diagnóstico de uma doença grave assusta. Com o resultado, surgem as dúvidas, os temores e a instabilidade. O amanhã, antes planejado e previsível, passa a ser incerto e amedrontador. As três histórias a seguir, entretanto, trazem um forte traço de esperança. Sempre acompanhados de uma boa dose de fé, os familiares de Daniel Furtado, 33 anos, Francisco Erinaldo, 46; e dos gêmeos Alan e Arthur, 4, resolveram compartilhar com conhecidos e desconhecidos o dia a dia de quem teve que aprender a lidar com enfermidades. As campanhas, espalhadas pelas redes sociais, reacenderam as perspectivas dos pacientes e, cada uma a seu modo, surpreenderam. Apesar das dificuldades, não restam dúvidas: a vida depois do diagnóstico pode ser mais leve graças à solidariedade, que vem de onde menos se espera.

A notícia chegou à casa de Daniel em março do ano passado. Recém-casado com Núbia Maria Furtado, 30, o servidor público descobriu tumores malignos no pescoço, no tórax e no abdômen. Com o diagnóstico, o casal, que vive em Unaí (MG) e tem parentes em Brasília, ficou desnorteado.“De início, ficamos desesperados e fomos atrás de tratamento”, conta Nubia. Morando de aluguel, o casal não tinha condições de pagar um tratamento na rede particular. A primeira solução, então, foi buscar ajuda na rede pública do Distrito Federal.

Entretanto, após uma cirurgia e quatro meses de sessões de quimioterapia — procedimentos realizados no Hospital Universitário de Brasília (HUB) —, a insegurança dos familiares esbarrou na indecisão dos médicos que cuidavam do caso. “Fizemos mais um exame para ver se os tumores tinham reduzido e descobrimos que isso não tinha acontecido. Daí em diante, os médicos ficaram indecisos, não sabiam se ele devia ser operado ou recorrer a outros tratamentos”, acrescenta. A decisão veio, mas acompanhada de uma notícia preocupante. “Eles (médicos) decidiram pela cirurgia, mas disseram que o risco de fazer uma operação desse porte na rede pública era muito grande.” E foi aí que a dívida, que levou à campanha #SomosTodosDaniel, começou a aparecer.

Depois do dilema, a família teve de recorrer ao tratamento na rede de saúde particular. Não havia escolha: ou isso, ou a saúde de Daniel estaria em jogo. A partir de outubro de 2015, ele foi para São Paulo para se tratar em um hospital particular da cidade. Foram consultas, exames, cirurgias e longos dias na UTI. Das complicações, que às vezes são imprevisíveis na medicina, surgiram novos procedimentos vitais, que tiveram de ser feitos sem hesitação. Quando Daniel teve alta, a conta do hospital representou um choque: eram R$ 970 mil. “Foi aí que ele (Daniel) sugeriu que fizéssemos uma vaquinha. Começamos em 1º dezembro”, conta.

Nubia, então, criou uma página na internet e uma vaquinha virtual. Lá, ela tornava pública a história de Daniel e pedia, em meio ao constrangimento, todo tipo de ajuda. Desde então, amigos, colegas de trabalho, familiares e desconhecidos ajudam como podem. Com o dinheiro arrecadado até agora, cerca de R$ 70 mil, eles pagaram o honorário de uma parte dos médicos, mas ainda falta muito para quitar a conta. “Não é fácil pedir, mas essa é a minha única saída. Tenho que contar com a solidariedade das pessoas”, desabafa.

Apesar do valor da conta, a família não desanima e acredita na providência divina. “Fico chateada e constrangida por não poder pagar, mas todos oramos muito e acreditamos numa saída”, diz. Atualmente, Daniel ainda tem um tumor no tórax e talvez precise fazer mais sessões de quimioterapia. Recuperando-se aos poucos, ele recebe o carinho da mulher dele e dos parentes mais próximos.“Costumo dizer que troquei a minha vida por uma dívida”, descreve.

Reviravolta

História não muito diferente é a do fotógrafo e cinegrafista Francisco Erinaldo Carvalho. O maranhense, que mora no Sol Nascente, em Ceilândia, também viu a vida passar por uma reviravolta no ano passado. Assim como no caso de Daniel, ele recebe grande apoio da mulher dele, a fotógrafa Elizoneide da Silva Carvalho, 42. Ele e Neide, como costuma ser chamada, são primos de primeiro grau e, longe das dores causadas pela doença, se divertem ao falar sobre como se apaixonaram. “É engraçado, por que nossas mães são irmãs. Mesmo assim, desde a adolescência, ele demonstrou um interesse por mim”, recorda Neide.

Depois de assumir o relacionamento, o casal veio morar em Brasília em busca de uma vida melhor. Sempre juntos, cobriram festas de 15 anos, casamentos e todo tipo de evento que merecesse ser eternizado em boas fotos. Nesse contexto de simplicidade e muito trabalho, a notícia do câncer chegou, sorrateira e inesperada. Após idas e vindas ao médico, Erinaldo foi diagnosticado com um tumor maligno no cérebro. “Tudo começou em 21 de agosto de 2015, com uma indisposição e tontura. A gente chegou a pensar que eram sintomas de estresse”, conta Neide. De início, os médicos identificaram um edema no cérebro de Erinaldo.

Também atendido em hospitais públicos do DF, ele teve de contar com a ajuda de amigos e familiares para pagar os primeiros procedimentos, que, à época, não estavam disponíveis na rede pública. “Não pensei duas vezes, peguei dinheiro emprestado e paguei os exames que ele precisou fazer”, recorda. Foram quatro marcações e desmarcações de cirurgia até que, em 21 de setembro, Erinaldo foi operado. “A cirurgia tinha dado certo, mas nós ainda não tínhamos certeza se era câncer”, complementa. Em seguida, descobriu uma tromboembolia pulmonar e, só depois disso, veio o resultado da biópsia. Ao saber do diagnóstico e conversar com os médicos, Neide soube que o marido precisaria de sessões de radio e quimioterapia.

“O médico nos deu um encaminhamento, mas, quando apresentei no hospital, me disseram que ele só conseguiria vaga na oncologia em cinco meses”, ressalta. O problema é que as sessões precisariam ser feitas o quanto antes. Caso contrário, a doença poderia avançar. Neste momento, Neide se deu conta de que precisaria pedir ajuda. Por indicação de uma amiga, ela resolveu criar uma campanha nas redes sociais. #AjudeErinaldo começou em novembro passado e mudou a vida dessa família. Naquele instante, o objetivo era arrecadar R$ 21 mil e, até a presente data, a família conseguiu R$ 24 mil. “Muita gente nos ajudou e nos ajuda até hoje. Recebemos muitas doações de amigos, clientes e desconhecidos.”

Um desses desconhecidos conseguiu um lugar cativo no coração da família Carvalho. Sem dar muitas informações sobre si, um rapaz fez o que pôde para ajudar ao casal de fotógrafos. Neide conta que, sem pensar duas vezes, ele leu sobre a história de Erinaldo e doou R$ 300. Não satisfeito, ainda iniciou uma campanha no lugar onde trabalha e conseguiu mais R$ 1,5 mil. Em outra ocasião, mais um desses anjos desconhecidos surpreendeu. “Um homem veio até aqui, pegou todas as nossas contas atrasadas e pagou”, recorda.

A campanha ainda está no ar. Erinaldo, que terminou as sessões de radioterapia em 19 de janeiro, foi admitido na Rede Sarah e aguarda as sessões de quimioterapia para concluir o tratamento. Os sinais de melhora são tímidos, processuais, mas comemorados por toda a família. Desde a cirurgia, ele ficou com o lado direito do corpo paralisado, mas, aos poucos, tem retomado os movimentos. “Agradeço muito a Deus por toda a ajuda que recebemos. Se não fosse essa campanha, não sei como ele estaria hoje”, emociona-se. No fim da entrevista, Erinaldo sinaliza querer falar. Envergonhado e sonolento, por conta dos fortes remédios que toma, ele dá uma lição vida. “Quando eu melhorar, quero ajudar as pessoas necessitadas que estão com câncer. A verdade é que eu nunca gostei de pedir, prefiro ajudar as pessoas. Mas, hoje, não tenho outra saída”, completa.

Solidariedade

O alívio pela solidariedade também veio para Ana Laysa Fonseca de Lima, 24 anos, mãe dos gêmeos Alan e Arthur, pequenos moradores de Planaltina. Quando completaram 1 ano e meio de vida, os irmãos foram diagnosticados com doença de Batten, uma enfermidade neurodegenerativa. Quando os médicos falaram sobre o diagnóstico, Ana e o marido, Francisco das Chagas, 27, sentiram um misto de dor e incredulidade. “Foi difícil aprender a conviver com isso, ainda mais por que pensávamos em como eles eram antes da doença”, diz a mãe.

Em razão da patologia, os meninos foram perdendo os movimentos e desaprendendo coisas que já haviam aprendido antes. Hoje, eles vivem na cama e se alimentam por gastrostomia. Não se sentam, não falam e estão perdendo a visão. O mais importante, entretanto, é que eles são a razão da vida dessa família. “Cuido deles porque tenho um amor e uma fé imensos”, desabafa. Vivendo para cuidar dos filhos e com marido autônomo, Ana se viu impotente diante da necessidade de comprar um leite especial para os pequenos.

Este é o único alimento dos gêmeos, fora alguns poucos sucos que eles podem tomar. Para se ter uma ideia, uma lata, que dura apenas por um dia, custa cerca de R$ 40. “A campanha começou por esse motivo. Contamos a história dos meninos nas rádios, na televisão e, principalmente, na internet”, diz. A ajuda superou as expectativas da família. Além de diversas latas de leite, eles ganharam roupas, fraldas e cestas básicas. “Um dia desses, abri o Facebook e tinha mais de cem pedidos de amizade. Todas essas pessoas estavam interessadas em nos ajudar. Sem essas doações, a situação estaria feia”, finaliza.

Ajude você também

» Daniel Furtado: (38) 99865-5213

» Francisco Erinaldo: (61) 8413-6564 e 9413-8184

» Alan e Arthur: (61) 8120-5204 e 8298-9536