Nielmanpick tipo C

A doença de Niemann-Pick tipo C (NPC), ao contrário dos tipos A/B, é causada não por uma de ciência de uma enzima lisossomal, mas sim por um defeito de transporte intralisossomal do colesterol

Descrita inicialmente em 1914 pelo pediatra alemão Albert Niemann a partir de um caso de uma criança com comprometimento do sistema nervoso central e esplenomegalia, e posteriormente pelo patologista alemão Ludwig Pick (em 1927), a compreensão da fisiopatologia da doença de Niemann-Pick tipo C (NPC) só foi possível em 1984, quando o Dr. Pentchev e os seus colegas descobriram a ligação entre a NPC e as anormalidades no trânsito intracelular de lipídios.
Duas proteínas são essenciais ao transporte do colesterol para fora do lisossomo: NPC1 e NPC2. Mutações em qualquer um dos genes codificadores dessas duas proteínas levam o indivíduo a ser afetado pela NPC. Ainda há muitas dúvidas sobre como essas proteínas atuam, mas evidências laboratoriais sugerem que ambas trabalham em conjunto para libertar o colesterol de dentro do lisossomo. Quando uma dessas proteínas não funciona adequadamente, ocorre a acumulação do colesterol dentro do lisossomo, “disparando” um cascata de eventos que leva ao acúmulo de glicoesfingolipídios, à alteração do metabolismo do cálcio intracelular e à apoptose celular. Esse acúmulo de glicoesfingolipídios ocupa um papel importante no processo de neurodegeneração, similar ao que ocorre em outras neurolipidoses.

Os sintomas principais de NPC são hepatomegalia, esplenomegalia, icterícia (particularmente nos primeiros meses de vida), além dos sinais neurológicos, tais como paralisia do olhar vertical supranuclear, ataxia, distonia, disartria ou ainda outros sinais extrapiramidais (como tremores, parkinsonismo). A paralisia do olhar vertical supranuclear é altamente sugestiva de NPC. Alterações ao nível do fígado ou do baço nos primeiros meses de vida são também muito sugestivas de NPC.
Alguns trabalhos sugerem que a NPC pode ser uma causa genética frequente de colestase prolongada no primeiro ano de vida. O diagnóstico é confirmado por teste citoquímico (teste de Filipin) ou pela análise molecular dos genes NPC1 e NPC2.
Os sintomas neurológicos, na maior parte das vezes, manifestam-se entre os 4 e os 10 anos de idade, mas podem começar mais precocemente ou até depois dos 60 anos de idade. O envolvimento neurológico é proeminente e independente do visceral, e está correlacionado com a gravidade da doença e seu caráter debilitante e fatal. Ainda não há cura para esta enfermidade porém, recentemente, foi aprovado na Europa, Canadá e Brasil, o uso de um iminoaçúcar conhecido como Miglustat como terapia modificadora da doença (Terapia de Redução de Substrato, TRS). Este medicamento diminui o acúmulo de glicoesfingolípidios e aparenta modular também o metabolismo do cálcio intracelular, porém não interfere no evento primário da doença, o acúmulo de colesterol no lisossomo.
O paciente com NPC deve ser seguido por uma equipe multidisciplinar, com ênfase em reabilitação e a família do paciente deve ter acesso a aconselhamento genético, pois trata-se de uma enfermidade recessiva com risco de 25% em futuras gestações do casal.