MPS II - O que é a síndrome de Hunter?

A síndrome de Hunter ou mucopolissacaridose tipo II (MPS II) é um raro e grave distúrbio genético  que afeta principalmente os homens. A doença interfere na capacidade do organismo em quebrar e reciclar determinadas substâncias conhecidas como mucopolissacarídeos ou glicosaminoglicanos (GAGs). A síndrome de Hunter é uma das várias doenças de depósito lisossômico.

Na síndrome de Hunter, os GAGs se acumulam nas células de todo o corpo em virtude da deficiência ou da ausência da enzima iduronato-2-sulfatase (I2S). Este acúmulo interfere no funcionamento de determinadas células e órgãos do corpo e produz uma série de graves sintomas no paciente . À medida que o acúmulo de GAG se intensifica nas células de todo o corpo, os sinais da síndrome de Hunter se tornam mais visíveis.

Para algumas pessoas, as manifestações físicas incluem características faciais típicas, como volume da cabeça aumentado (macrocefalia) e aumento de abdômen. Os portadores da síndrome de Hunter também podem apresentar perdas auditivas, espessamento das válvulas cardíacas (levando a um declínio progressivo na função cardíaca), doença obstrutiva das vias aéreas, apnéia do sono e aumento do fígado e baço. A amplitude dos movimentos e a mobilidade também podem ser afetadas. Em alguns casos da doença, o envolvimento do sistema nervoso central pode ocasionar atrasos no desenvolvimento e problemas no sistema nervoso central. Nem todos os portadores de MPS II são acometidos da mesma maneira e a velocidade da progressão dos sintomas é muito variável. No entanto, não se pode esquecer que a síndrome de Hunter é geralmente grave, possui caráter progressivo  e , invariavelmente, afeta a qualidade de vida do paciente, podendo levar à diminuição significativa de  sua expectativa de vida..

Se você, ou alguém que você conhece, é portador da síndrome de Hunter é importante obter o máximo de informações sobre a doença. Converse com seu médico sobre outras fontes de informações, inclusive sobre outros profissionais da saúde- tais como fisioterapeutas, psicológos e terapeutas ocupacionais - que poderão ajudá-lo a entender melhor a doença e o impacto para você e para sua família.

O diagnóstico da síndrome de Hunter (MPS II)
Em geral, os primeiros sinais que levam ao diagnóstico da síndrome de Hunter (MPS II) em crianças e jovens são os sinais e sintomas vísiveis. De forma geral, o diagnóstico é habitualmente estabelecido entre os dois e quatro anos de idade. Antes de fazer um diagnóstico definitivo, os médicos podem realizar testes laboratoriais para medir a atividade da enzima iduronato-2-sulfatase (I2S). A triagem laboratorial mais usada para MPS é um teste de urina para detectar a  presença de GAGs. É importante observar que o teste de urina para GAGs pode ser normal, mesmo quando a criança é portadora de MPS.

O médico pode também solicitar um conjunto de raios-X (geralmente das mãos, ossos longos e coluna vertebral), a fim de localizar um padrão específico de desenvolvimento ósseo que possa ser sugestivo de um diagnóstico da síndrome de Hunter.

O diagnóstico definitivo da síndrome de Hunter é realizado ao se medir a atividade da I2S no soro, em leucócitos ou em fibroblastos obtidos por biopsia da pele.

Em algumas pessoas com síndrome de Hunter, a análise do gene I2S pode determinar a gravidade clínica da doença. O diagnóstico pré-natal está disponível como rotina e pode ser realizado através da medida da atividade enzimática da I2S no líquido amniótico ou no tecido das vilosidades coriônicas.

A genética da síndrome de Hunter (MPS II)



(A síndrome de Hunter (MPS II) tem um padrão de herança ligado ao cromossomo X. A mãe portadora transmitirá o gene com a mutação, causadora da sindrome, com uma probabilidade de 50% a cada gestação. O pai com a síndrome de Hunter transmitirá o gene com a mutação codificador da I2S para todas as suas filhas e não transmitirá para nenhum dos seus filhos.)

Estima-se que a síndrome de Hunter (MPS II) afeta em média 1 em cada 155 mil nascimentos vivos. Como a síndrome é um distúrbio hereditário recessivo, ligado ao cromossomo X, afeta principalmente pessoas do sexo masculino. É transmitida de uma geração para outra de uma forma específica. Quase todas as células no corpo humano têm 46 cromossomos, sendo 23 herdados do pai e 23 herdados da mãe. O gene que codifica a produção do I2S está localizado no cromossomo X. As mulheres têm dois cromossomos X, um herdado do pai e o outro da mãe; já os homens têm um cromossomo X herdado da mãe e um cromossomo Y herdado do pai.

Se o homem receber uma cópia anormal do gene I2S, ele desenvolverá a síndrome de Hunter. Um homem pode herdar uma cópia anormal do gene I2S de duas formas diferentes. A mais freqüente é quando sua mãe é uma portadora, ou seja, ela tem um gene I2S anormal e outro normal, transmitindo o gene anormal para ele. A outra forma é quando ocorre uma “mutação espontânea” no gene I2S durante a formação da célula primordial que gerará o embrião.. No primeiro caso, a mãe é uma portadora e o risco de passar o gene com a mutação é de 50%; no segundo caso, a chance de  ocorrer novamente uma mutação espontânea em outra gestação, embora seja muito baixa, não chega ser nula.

As mulheres que carregam uma cópia anormal do gene I2S geralmente não são afetadas. Embora incomuns, já foram relatados casos de Hunter em mulheres e, normalmente, a doença se apresenta de forma mais branda.

Aspectos bioquímicos da síndrome de Hunter (MPS II)



O corpo humano depende de uma ampla gama de reações bioquímicas para manter suas funções vitais, inclusive para produzir energia, crescer e se desenvolver, para a comunicação dentro do corpo e para a proteção contra infecções. Uma outra função essencial é a quebra de grandes biomoléculas, e é aí que reside a base da síndrome de Hunter (MPS II) e das outras doenças de depósito lisossômico.

A fisiopatologia da síndrome de Hunter está relacionada a um problema em uma parte do tecido conjuntivo do corpo conhecida como matriz extracelular. A matriz é constituída por uma variedade de açúcares e proteínas e ajuda a formar a estrutura arquitetônica de suporte do organismo. A matriz envolve as células como um sistema de malha organizado e age como uma cola que mantém as células unidas. Uma das partes da matriz extracelular é uma molécula complexa denominada proteoglicano. Como muitos componentes do organismo, os proteoglicanos precisam ser quebrados e substituídos. Quando o organismo quebra os proteoglicanos, um dos produtos resultantes é o mucopolissacarídeos ou GAG. Há vários tipos de GAGs, cada um encontrado em locais distintos do corpo.

Na síndrome de Hunter, o problema ocorre na quebra ou na decomposição de dois GAGs: dermatan-sulfato e heparan-sulfato. A primeira etapa na quebra do dermatan-sulfato e heparan-sulfato requer a participação da enzima lisossômica I2S. Nas pessoas acometidas pela síndrome de Hunter, esta enzima é parcial ou totalmente inativa. Como resultado, os GAGs se acumulam nas células de todo o organismo, principalmente nos tecidos que contêm grandes quantidades de dermatan-sulfato e heparan-sulfato. À medida que este depósito aumenta, passa a interferir na maneira como as células e órgãos funcionam no corpo, causando vários graves sintomas.

O acúmulo de GAGs não é o mesmo para todas as pessoas com síndrome de Hunter, resultando em uma amplo e diverso espectro de problemas médicos.